quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Psicoterapia em casa: para quem é indicada e quais suas vantagens?

Para quem busca o cuidado com sua saúde mental, emocional e seu desenvolvimento pessoal, sempre fará o máximo possível para poder dedicar um tempo dentro de sua rotina do dia a dia para ter esse momento de cuidado. Porém, muitas vezes devido a uma impossibilidade física, emocional ou de comprometedora rotina, dirigir-se a um consultório de psicologia pode ser uma tarefa impossível ou muito cansativa, o que pode significar num tratamento somente medicamentoso, que pode ser um tanto incompleto dependendo do paciente, na possibilidade de não conseguir trabalhar com uma ação preventiva de saúde, o que pode trazer uma situação crítica no futuro, ou fazer daquele momento que precisamos ter para refletir sobre nossa vida algo pouco, ou nada produtivo, isso porque no momento da terapia precisamos ter o mínimo de preocupações além daquelas que trazemos ao consultório, que são os grandes motivos de nossa busca pelo psicólogo.

Pensando nessas situações, o profissional psicólogo buscou repensar sua prática de trabalho para dar a esse público específico à possibilidade de ter seus cuidados tão necessários, saindo do consultório e se dirigindo até a casa de seus pacientes/clientes, que podem assim agendar suas visitas num horário que seja mais conveniente as suas necessidades. Receber um psicólogo em casa pode ser benéfico não só pela comodidade de horários e de locomoção, mas também porque o profissional poderá conhecer mais de perto um ponto muito importante a ser levado em conta num processo psicoterapêutico: o ambiente de moradia, com suas condições físicas, o dia a dia da pessoa ali, sua família e seu relacionamento com o paciente/cliente, etc.


O atendimento domiciliar normalmente é mais solicitado em casos de depressão, luto, fobias sociais e pacientes acamados, porém, como foi dito anteriormente, pode ser agendado uma sessão em casa para tratar de diversos tipos de questões, como por exemplo, uma terapia para um casal, que devido ao grande comprometimento com filhos pequenos não consegue se deslocar até um consultório, pessoas com grande comprometimento no trabalho, que por consequência não conseguem se deslocar ao consultório em seus horários disponíveis, ou fica menos cansativo receber o psicólogo em casa no fim do dia, famílias que desejam um auxílio na relação com um familiar portador de uma psicopatologia, ou de uma deficiência intelectual, etc. Mas acima de tudo, é importante que não tenhamos medo ou vergonha de solicitar ajuda profissional, afinal, ninguém nasce com todas as respostas e ninguém precisa segurar todos os problemas da vida sozinho. Sentir que podemos contar com alguém que nos ouça de forma sincera e que está interessado em nos ajudar a abrir nossa compreensão sobre o que ocorre é de extrema importância em situações difíceis e, se temos ao nosso alcance um profissional qualificado para isso, que trate nossas questões com pleno sigilo e que tenha a disposição necessária para nossas necessidades, qual é nossa desculpa para não cuidarmos melhor do nosso viver?

O que é psicoterapia?

Para grande parte das pessoas do nosso país, psicólogo é sinônimo de atendimento clínico, etapa de processo seletivo para vagas de trabalho ou aplicação de testes “psicotécnicos”, especialmente para tirar a carta de habilitação. É claro que é importante lembrar que a atuação do psicólogo é muito mais ampla que isso, mas nesse momento gostaria de aprofundar aqui o assunto “atendimento clínico”, ou dito de forma mais correta, a “psicoterapia”, que querendo ou não é a prática de trabalho do psicólogo lembrada com maior frequência pelas pessoas, mas ao mesmo tempo ainda são pouco conhecidos seus objetivos, para quem é indicado, qual o papel do psicólogo e do paciente durante as sessões e o que diz o código de ética profissional quanto à relação paciente/terapeuta.

A definição de psicoterapia pode mudar de acordo com a visão teórica de cada psicólogo, pois cada corrente da psicologia tem um entendimento particular sobre o papel do terapeuta, sobre o desenvolvimento emocional saudável ao longo das etapas da vida (infância, fase adulta e velhice), sobre as condições mais favoráveis para o desenvolvimento da inteligência e de habilidades sociais, o que podem ser considerados como obstáculos ao crescimento pessoal e até mesmo o que é considerado como psicopatologia. No entanto, de uma forma geral podemos dizer que o objetivo de toda psicoterapia é promover o autoconhecimento, através de um momento de acolhida da queixa do paciente, de compreensão empática, para que o terapeuta possa ajudar a pessoa a compreender melhor, de forma mais aprofundada como funciona seu modo de pensar quanto ao que esta passando, quanto a si mesmo, quanto aos outros, quanto ao mundo, perceber aquilo que ainda não consegue perceber, para que possa por ele mesmo (o paciente) saber qual atitude é a mais ideal, a mais madura a ser tomada para resolver seus problemas, para alcançar seus objetivos e assim poder aliviar suas ansiedades, suas angustias e ter um viver melhor. Isso não é exatamente cura; é desenvolvimento humano, pois estaremos aprendendo a lidar não só com os conflitos do agora, mas com os que certamente virão no futuro, porém, dessa vez, de forma mais serena.

A essa altura, você que esta lendo este texto possivelmente já entendeu que fazer terapia não é buscar respostas prontas e imediatas de outra pessoa para resolver seus problemas, certo? Mesmo porque existe uma diferença enorme entre você ouvir o que acham que é ideal para você e você se “conscientizar” do que é ideal para você. Quem se conscientiza de algo é porque acreditou em algo; se acreditou em algo é porque esse algo teve um sentido coerente e realista e, para que isso tudo possa ocorrer é necessário pensar bem na questão. Muitas vezes ouvir uma frase ou um conselho que lhe “pareceu” positivo e bacana pode não ser aplicável para você, pois será mesmo que aquilo que é tão claro e ideal para uma determinada pessoa é também claro e ideal para mim?

O paciente não deve ser um escravo emocional de seu terapeuta e este não deve ser sua “bengala” para se escorar para o resto da vida, sendo sua dependência eterna para saber o que fazer e o que não fazer; o profissional deve ajudá-lo a caminhar com as próprias pernas. O ato de pensar na psicoterapia não costuma ser uma tarefa simples e fácil, porque é uma investigação mais detalhada a cerca de nós mesmos e do que nos abala, logo, leva certo tempo para achar respostas, (um tempo que varia de pessoa para pessoa, pois cada um tem seu tempo de melhora) pode angustiar em alguns momentos, mas se for encarado como algo necessário para o desenvolvimento pessoal, pode trazer alívio, sensação de estar liberto das amarras da angústia. Quanto à prática, geralmente a maior parte das sessões são conduzidas somente através do diálogo entre o paciente e o terapeuta, mas dependendo do profissional, este pode fazer uso de alguns recursos terapêuticos que ajudam o paciente em seu autoconhecimento, como por exemplo, a prática de atividades artísticas, como pinturas, desenhos, artesanatos (arte terapia), teatro (psicodrama), musica (musicoterapia), entre outros. Tudo vai depender do paciente, se vai se sentir a vontade para fazer essa ou aquela atividade, ou se prefere simplesmente dialogar com o terapeuta.

Quanto aos cuidados na relação paciente/terapeuta, o código de ética dos psicólogos deixa claro alguns detalhes importantes a serem respeitados tanto pelo psicólogo quanto pelo paciente, como por exemplo, dentre os mais conhecidos são, o sigilo sobre o que é conversado durante as sessões, não se vincularem de forma íntima (relacionamento amoroso, sair como amigos, etc.), o respeito pela orientação sexual e pela religiosidade (não tratando como doença ou com preconceitos), não prometer prazos de melhora (varia de pessoa para pessoa), fazer uso somente de princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional (exorcizar espíritos, usar água benta, entre outras coisas, por exemplo, não são técnicas reconhecidas e autorizadas), entre outros pontos, que podem ser conferidos no link abaixo, na pagina do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e de demais cidades, onde o paciente também pode, caso deseje, verificar se o profissional é devidamente registrado e autorizado pelo Conselho a exercer a profissão de psicólogo, bastando pesquisar pelo número de registro profissional (CRP) ou nome completo do terapeuta.


E finalizando, é importante também orientar que a psicoterapia não é indicada somente para pessoas que sofrem de alguma psicopatologia (doença da mente), mas também é indicada para qualquer pessoa que busque o autoconhecimento como forma de desenvolvimento pessoal, seja por quaisquer motivos, pois podemos levar ás sessões qualquer assunto que desejamos, inclusive aqueles que não temos coragem de conversar com outras pessoas e que buscamos alguém que nos ouça sem nos condenar, pois não cabe ao psicólogo julgar moralmente, tendo sempre em mente que nosso sigilo esta garantido pela ética profissional. Podemos fazer uso da psicoterapia também em situações onde temos problemas que nos afetam emocionalmente, mas que não necessariamente nos torna uma pessoa doente, até mesmo porque assim estaremos trabalhando com a prevenção de nossa saúde mental, justamente para que não desenvolvamos um quadro grave no futuro.

O que é saúde mental?

O conceito de saúde mental é considerado algo subjetivo (variável), pois muda de acordo com as épocas e a cultura de cada pessoa. Porém, para a maior parte da população e dos especialistas, mesmo que sejam de culturas diferentes e também dentro do entendimento da Organização Mundial De Saúde (OMS), a saúde mental é definida como “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere“. Em outras palavras isso significa que a pessoa que é mentalmente saudável é aquela que exerce suas atividades do dia a dia, sejam elas profissionais, intelectuais, domésticas ou sociais, como estudar, trabalhar, cuidar da casa e dos filhos, fazer amizades, namorar, entre outras coisas e, ao mesmo tempo sabe lidar com os problemas que a abalam emocionalmente e mentalmente, inclusive na hora de saber procurar por ajuda quando precisa, ao mesmo tempo em que é uma boa cidadã, pois busca não causar danos a outras pessoas na sociedade, por uma questão ética e moral.

Contudo, a saúde mental costuma ser muito lembrada na maioria das vezes em situações de crise intensa, onde a pessoa é diagnosticada com uma psicopatologia crônica ou tem problemas com vícios, como álcool e drogas, situações onde normalmente precisa seguir um tratamento com base em medicações e algumas terapias. Isso não esta errado, mas infelizmente poucas vezes a saúde mental é lembrada como uma necessidade preventiva, ou seja, poucas vezes é entendido que é necessário fazer trabalhos de prevenção justamente para que não sejamos vítimas de situações crônicas, que implicam em afastamentos no trabalho, vícios, crises familiares, quebra de vínculos sociais, suicídios, etc. Por uma questão de descaso governamental e de culturas antigas é que muitas pessoas ainda acreditam que se preocupar com a saúde mental é (no dito popular) “coisa de louco”, ou seja, somente “os loucos é que tem que ir atrás disto”, “somente os loucos vão ao psicólogo”, etc. Crenças como essa resultam na criação de certa resistência na pessoa que no fundo muitas vezes sabe pelo que esta passando, sabe que precisa de um tratamento, mas resiste com medo do que seus familiares, amigos e colegas vão pensar a seu respeito.

Os profissionais que atuam nesta área da saúde, a exemplo dos psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, entre outros, deveriam estar mais inseridos em diversos setores da sociedade trabalhando com ações preventivas para o bem estar emocional e mental, como por exemplo, dentro das empresas, trabalhando com as relações entre funcionários e gestores, com a gestão do desgaste mental e emocional na pratica laboral e não somente com admissões, demissões e afastamentos, assim como em escolas da rede pública e privada, trabalhando a relação entre professores, alunos, direção e familiares, mecanismos de aprendizagem, estruturação do ambiente de ensino, palestras de orientação, entre outros e nos nossos bairros em serviços públicos de monitoramento sócio assistencial, realizando visitas domiciliares, promovendo atividades educativas que visem orientar a população sobre a importância da saúde mental preventiva, sobre vícios, sobre cidadania, sobre direitos que auxiliam em situações de crise, etc. Esses tipos de ações existem, mas são extremamente pouco praticadas.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM V é uma publicação da medicina psiquiátrica que serve como um guia que orienta o profissional em saúde mental sobre características específicas das doenças mentais conhecidas; porém ao mesmo tempo que orienta ele também provoca polêmicas quanto a classificação de certas doenças, como por exemplo sobre aspectos que envolvem crenças religiosas, como visões, escuta de vozes de entidades e intuições sobre a realidade, que são classificados como sendo de natureza psicótica, o que é considerado um insulto por parte dos membros de determinadas religiões. Como forma de cuidado específico com esse público foram criadas instituições de saúde mental especificamente voltadas para determinados grupos de religiosos, que as buscam no intuito de poderem tratar a mente sem serem taxados como “loucos” por causa de questões relacionadas á sua fé. Porém isso não teria necessidade se houvesse maior empatia e um melhor manejo por parte dos profissionais quanto aos seus pacientes, entendendo que cada pessoa pensa da forma como pensa devido a sua cultura e isso implica na crença de um sentido de vida, que pode estar fazendo com que a pessoa seja bem estruturada emocionalmente e não necessariamente por causa de sua fé ela venha a desenvolver uma psicopatologia.


Segundo a concepção da psicologia humanista e positivista, a saúde mental também é sinônimo do exercício constante de superação das capacidades, de pensamento positivo diante de adversidades e de transcendência da condição humana, com uma visão positiva sobre o sentido da existência. Mas acima de tudo, devemos ter em mente que cada pessoa tem uma visão e necessidades específicas quanto ao seu bem estar emocional e mental, independente de idade e classe social e que devemos buscar aceitar a pessoa com suas limitações, posicionamentos e reconhecer suas capacidades, promovendo sempre o contato social, orientação, tratamento e reabilitação, não como uma caridade, mas como uma garantia de direitos, prevista na lei n 10.216, de 6 de abril de 2011, que dispõe sobre a proteção e os direitos da pessoa portadora de transtornos mentais e que redirecionou o modelo assistencial em saúde mental através do movimento da “luta antimanicomial”, que trouxe um modelo de tratamento mais humanizado, junto da convivência familiar e comunitária e não mais no isolamento segregado do manicômio.